domingo, 20 de julho de 2008

Palestra de Sérgio Greif durante o Encontro Nacional de Direitos Animais (ENDA)

Palestra proferida por Sérgio Greif durante o Encontro Nacional de Direitos Animais (ENDA).

Sérgio Greif é biólogo, mestre em Alimentos e Nutrição, co-autor dos livros A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo e Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável.

Direitos animais e o caminho a seguir

sergio_greif@...

Por ocasião do 1º Encontro Nacional de Direitos Animais (ENDA), ocorrido em Porangaba - SP, entre os dias 1º e 4º de maio de 2008, tive a oportunidade de proferir 4 palestras sobre temas diversos. Duas dessas palestras tratavam de aspectos relacionados ao posicionamento ideológico daqueles que lutam pelos direitos dos animais, sendo uma referente ao dito “movimento abolicionista” e a segunda uma tentativa de estabelecer de que forma se daria o ativismo pelos direitos animais no futuro. O artigo que se segue refere-se a essas duas apresentações realizadas.

Vem ganhando popularidade em nosso meio as alusões e referências a um tal “abolicionismo animal”. Mais e mais pessoas vem se auto-denominando abolicionistas, escrevendo mensagens de e-mail destinadas aos “Prezados Abolicionistas” (independente de quem sejam os destinatários) e se despedindo em suas mensagens com “abraços abolicionistas”. Abolicionismo parece ser a nova palavra da moda, seja lá o que ela queira dizer para a maioria das pessoas.

Embora “abolicionismo animal” seja uma terminologia popularizada relativamente em tempos recentes, a idéia que ela encerra não é de forma alguma nova. Abolicionistas não inventaram nada que já não se soubesse; essa não é uma nova seita, sem um passado, e que surgiu para acabar com tudo o que se tinha até então, como querem fazer parecer muitos “protetores de animais das antigas”. Se hoje o termo abolicionismo é necessário, se foi preciso “inventar” uma palavra, foi porque as antigas terminologias – direitos animais, proteção animal, defesa animal - ou qualquer outra que tenha vindo a ser utilizada, foram corrompidas pelo desgaste e mau uso.

Se pessoas que reproduzem animais, criam-nos para seus fins, fazem uso de sua carne, couro ou outras partes, etc. – se pessoas, enfim, que não possuem nenhum compromisso para com a vida animal repentinamente passam a se autodenominar “protetores de animais”, “defensores de animais”, etc., então é certo que as pessoas que realmente protegem e defendem animais, que lutam por seus direitos, precisarão adotar uma outra denominação. Se muitas pessoas entendem que lutar pelos direitos animais significa lutar para que as galinhas tenham jaulas maiores ou para que o vitelo possa deitar em um cocho um pouco mais largo, esticando as pernas, então de fato entendemos porque da necessidade de se criar uma nova palavra. Assim popularizou-se o termo “abolicionismo”.

Mas essa popularização, quando não seguida de uma definição clara e amplamente entendida e aceita, pode ser algo ruim. Basta analisarmos a forma como muitos auto-denominados abolicionistas levam a vida ou se embrenham no seu ativismo para vermos que o abolicionismo de agora nada tem a ver com o que devíamos entender por abolicionismo, e que ele muito mais se aproxima da proteção animais outrora criticada. Aliás, é óbvio que apenas se autodenominar abolicionista sem seguir a isso uma critica ao bem-estarismo é uma colocação vazia. Não há porque utilizar essa palavra senão em oposição ao movimento tal qual existia e existe até hoje.

Abolicionismo nada mais é do que direitos animais. Não há nada somado, não há nada subtraído. Direitos animais em sua forma mais pura. Não é novo porque o conceito estava lá desde o começo. Se reconhecemos que animais possuem direitos e que esses direitos são inalienáveis então não podemos utilizar animais como meios para nossos fins. O conceito é simples, não há mais o que se argumentar sobre isso. Mas tudo o que é diferente disso, ainda que parecido para os menos avisados, não é mais direitos animais.

No meu entender, visto o mau uso do termo abolicionismo, caminhamos para a eleição de uma nova palavra para definir a forma como pensamos. Direitos animais já foi bom, mas foi corrompido, abolicionismo já começou com um emprego ruim... que palavra virá agora? Minha opinião é que deixemos de neologismos, deixemos o abolicionismo de lado e nos voltemos novamente para os direitos animais, mais lógico e explicativo. Com o perdão das palavras, mas para o inferno os protetores de animais, falsos defensores de animais – se eles comem frango ou apóiam o uso “ético” de animais em pesquisa, eles não defendem nada senão seus próprios interesses. Sou pelos direitos animais e só me denomino abolicionista quando preciso fazer uma crítica específica ao bem-estarismo.

O ideal abolicionista não é novo, nem saiu do movimento de defesa animal, como muitas vezes colocado pelos críticos. Estiveram ambos os movimentos engendrados um ao outro desde o começo, atrapalhando-se e confundindo-se mutuamente. A cisão que surgiu recentemente não veio para enfraquecer, mas para fortalecer cada movimento em suas opiniões, cada qual em sua maneira de agir. E as diferenças são tantas que ambos os grupos chegam a ser opostos, embora por um ponto de vista bastante superficial, ambos lutem pela mesma coisa.

Entender a evolução deste movimento é entender seu próprio funcionamento. Não pretendo aqui escrever muito mais do que já foi escrito sobre essa evolução. Outros artigos nessa mesma publicação o fazem muito melhor. Mas como uma rápida retrospectiva dos fatos, precisamos entender que, no mundo ocidental, grande parte do pensamento humano com relação aos animais baseou-se na passagem de Gênesis 1:28 “E Deus os abençoou (Adão e Eva), e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.”. Essa passagem, invocada em praticamente toda discussão referente aos direitos animais, predominou no pensamento humano durante as Idades Antiga, Média e Moderna.

Mesmo atualmente ainda há quem a use para justificar o direito do homem sobre as demais espécies, o que de fato atesta contra a racionalidade do argumentador, visto que outras passagens bíblicas autorizam a escravidão, o saque, o estupro, etc (para mais informações sobre esse tópico leia o ensaio “O bem-estarismo e a Bíblia” - www.anima.org.ar/libertacao/animais/o-bem-estraismo-e-a-biblia.html). Note-se que muitas vezes quem utiliza tal argumento sequer conhece ou segue a Bíblia. Apenas a utiliza para defender um ponto de vista que serve aos seus interesses.

A defesa da idéia de que animais são meros recursos a serviço dos seres humanos atingiu seu ápice com René Descartes, que em 1637 defendia que os corpos eram apenas máquinas, autômatos. Embora Descartes tentasse ser perfeitamente racional em sua argumentação, ou como mais tarde popularizou-se dizer – Cartesiano – sua lógica não estava desvencilhada do pensamento da época. O homem é também máquina visto que possui corpo, mas possuindo também alma e pensamento, torna-se sujeito de direito. Animais não possuíam alma nem pensavam, pelo menos esse era o pensamento da época, logo, não eram mais do que robôs. E robôs podem ser usados para qualquer coisa, inclusive destruídos sem qualquer justificativa.

O Iluminismo surgiu como uma crítica a diversos pressupostos religiosos, entre os quais a idéia de que animais não possuíam alma ou não raciocinavam. Jean-Jacques Rousseau em 1755 defendia que os animais possuem sim sentimentos, e que por isso não devem ser “desnecessariamente mal tratados”. Vemos aqui que Rousseau não chega a realizar uma defesa verdadeira aos direitos animais. Ele reconhece que animais sofrem e que, portanto, é moralmente errado fazê-los sofrer. Mas se ele cita o “sofrimento desnecessário” é porque pressupõe a existência do “sofrimento necessário”. Embora referido como vegetariano pelas sociedades vegetarianas pelo mundo afora, Rosseau jamais foi vegetariano nem se posicionou contra qualquer uso de animais. Apenas sugeria que houvesse maior critério nesse uso.

Outro iluminista, Voltaire, em 1764 fez críticas mais específicas às colocações de Descartes, defendendo que animais pensam e tem sentimentos. Embora defendesse isso, acreditava que tínhamos o direito de usar animais, ao mesmo tempo que tínhamos obrigação de defendê-los. Esse antagonismo, um contra-senso, é o cenário que ainda encontramos no movimento de “proteção animal”. Protetores de animais até hoje defendem essa mesma idéia, a de que podemos utilizar animais para nossos fins, mas temos obrigação de defendê-los.

Immanuel Kant, outro filósofo iluminista bastante prolífico, defendia em 1781 que o ser humano devia se abster de maltratar animais porque o homem que se acostumava com o sofrimento animal mais facilmente se tornava indiferente ao sofrimento humano. Na opinião de Kant os animais em si não gozavam de direitos, nem o sistema moral que devia ser aplicado a todos os homens deveria ser estendido aos animais. Apenas devíamos nos compadecer dos animais porque assim nos compadeceríamos do próprio ser humano.

O filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham, maior representante da ideologia utilitarista, escreveu em seu livro de 1789 An Introduction to the Principles of Morals and Legislation: “Pode um dia vir a ser reconhecido que o número de pernas, a vilosidade da pele, ou a terminação do osso sacro são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser senciente à mesma sorte.

O que mais seria isso que poderia traçar a linha insuperável? É a faculdade da razão ou talvez a faculdade do discurso? Mas um cavalo ou um cão bem crescidos são sem comparação mais racionais, bem como mais comunicativos, do que um bebê de um dia ou de uma semana ou mesmo de um mês de vida. Mas suponhamos que eles fossem de outra maneira, o que isso valeria? A questão não é, Eles pensam?, nem Eles falam? Mas, Eles sofrem?”

Muitos se referem a essa passagem de Jeremy Bentham como o início do pensamento com respeito aos direitos animais, mas costumo vê-la como apenas mais um degrau em direção a esse pensamento. Bentham não era ele mesmo um vegano, e embora fosse opositor da escravidão humana, acreditava que animais podiam ser escravizados. A contribuição verdadeira de Bentham não foi com relação aos direitos animais, mas sim em reconhecer que animais possuíam interesses iguais aos do homem no que se refere à capacidade de sofrer e sentir dor.

Embora seus escritos sejam referidos como tendo dado início ao movimento de direitos animais, sua influência foi mais forte dentro do movimento de bem-estar animal. Por influência de Bentham, em 1822 foi promulgada a primeira lei de bem-estar animal da história, a British Anti Cruelty Act, que pretendia prevenir a crueldade contra os animais habitualmente utilizados pelo homem. A lei em nenhum momento questionava se animais devem ser utilizados, apenas estabelecia que uma vez que seu uso existe, os animais deveriam ser tratados seguindo princípios não-cruéis. Essa lei não era extensiva a todas as espécies animais, mas aplicável apenas a animais domésticos de grande porte.

Em 1824 foi fundada, também na Inglaterra, a Society for the Prevention of Cruelty to Animals – SPCA, rebatizada em 1840 de Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals. Esses dois eventos servem de marco histórico para o bem-estarismo enquanto movimento, e embora em determinados aspectos isso tenha influenciado o movimento pelos direitos animais, não se pode considerar que o reconhecimento de que animais que devem ser utilizados pelo homem merecem alguma consideração devido à sua capacidade de sentir dor seja um passo em direção ao reconhecimento de que animais não devem ser utilizados pelo homem.

O bem-estarismo, compatível com a filosofia utilitarista, difere da filosofia dos direitos animais em tantos aspectos que apenas por ignorância ou superficialidade as pessoas podem confundi-los. Como nos direitos animais, o bem-estarismo também reconhece que animais são seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor e sofrer. Mas as semelhanças acabam por aqui, pois com essa informação em mãos, ambos os grupos tomam caminhos opostos.

- Bem-estaristas reconhecem que animais podem sentir dor, logo, não devem jamais sofrer desnecessariamente. Mas, quando o sofrimento for necessário, animais podem ser usados. Bem-estaristas crêem que existem formas éticas de utilização de animais, a que chamam de “tratamento humanitário”, onde alega-se que o sofrimento é minimizado. Bem-estaristas defendem que a prevenção da crueldade contra animais deve ser regulamentada por leis.

- Os defensores dos direitos animais, como os bem-estaristas, reconhecem que animais são seres sencientes. Exatamente essa senciência lhes torna sujeitos de direito. Animais têm interesse em não sofrer, em não sentir dor, em continuarem vivos. Portanto, fazê-los sofrer ou matá-los é moralmente errado. Animais não devem ser vistos como recursos, como meios para nossos fins, e independente do valor que o ser humano lhes atribua, animais possuem um valor inerente que não pode ser expresso em termos monetários ou negociados de alguma maneira.

A diferença fundamental entre bem-estaristas e defensores dos direitos animais é que os primeiros não se opõe ao uso de animais e apenas lutam pela sua regulamentação, enquanto que os segundos querem abolir toda forma de exploração animal. São movimentos que trabalham por causas opostas, pois regulamentar determinado uso significa torná-lo aceitável, mais longe de ser abolido. Apesar disso, ambos os movimentos se confundem entre si, gerando por vezes atritos e desavenças.

O filósofo australiano Peter Singer, discípulo de Bentham, é muitas vezes referido como pai do movimento de direitos animais. Embora seu livro Animal Liberation, de 1974, tenha popularizado a idéia de que animais sofrem, em nenhum momento Singer nele defende que não devemos utilizar animais. O nome “Libertação Animal”, do título, não condiz com o conteúdo do livro. Singer tem um posicionamento utilitarista, onde o prazer deve ser maximizado e o sofrimento minimizado, tanto para os homens quanto para animais. Ele também tem uma argumentação coerente no que se refere ao princípio da igualdade entre espécies. Mas, por outro lado, ele também defende que vidas – humanas ou animais - podem ser negociadas em troca de “um bem maior”.

Na concepção de Singer, animais podem ser usados desde que isso beneficie a um grande número de animais ou de seres humanos. A vida e o direito individual não têm aqui valor, indivíduos podem ser sacrificados pelo bem da coletividade. Singer reconhece que animais tem interesse em não sentir dor, mas não tem interesse na vida e na existência continuada. Assim, não há nada de errado em matar um animal, o errado está em fazê-lo sofrer. Singer não defende o veganismo, mas sim um “onívorismo consciente”, onde os produtos de origem animal sejam oriundos de sistemas de criação que dêem aos animais “tratamento humanitário”. Defendendo idéias referentes ao bem-estar de animais de criação, Singer não reconhece que animais tem direitos.

O bem-estarismo falha em sua alegada missão de proteger animais em diversos aspectos, especialmente por:

- supor que em algum momento a exploração de animais pode ser eticamente justificada;

- supor que o julgamento humano de fato pode contrapor os interesses de animais (propriedades) e humanos (proprietários) com justiça;

- permitir que o “sofrimento necessário” imposto aos animais seja, na prática, todo uso que se queira fazer do animal;

- supor que leis anti-crueldade de fato protegem os animais ou previnem abusos sendo que elas sequer tipificam o que sejam crueldades ou abusos;

O bem-estarismo em verdade conduz a um lugar bastante diverso do que se desejaria para os animais. Promovendo o consumo de produtos de origem animal do tipo carne de boi orgânico, frango caipira, leite de “vaquinhas felizes”, etc. o bem-estarismo cria uma sensação de conforto com relação à exploração animal. O erro não está na exploração de animais, mas na forma como o fazemos. Pessoas deixam de se tornarem veganas para consumir esses produtos mais caros e valorizados, mas que na praticam não são sequer resultados de sistemas de exploração menos sofríveis para os animais. O manejo valorizado pelo bem-estarismo, além de resultar em melhoria na produção pecuária, apenas elimina o sofrimento inútil do sistema de criação. O “sofrimento útil”, que se converte em dinheiro para criador, é mantido, até porque ele é inerente a essa atividade.

E porque valoriza a exploração animal, o bem-estarismo tem como ícones de seu movimento indivíduos e organizações que se destacam explorando animais, desde que adotando a mesma ótica de minimização do sofrimento “desnecessário” e otimização do manejo. Por esse motivo organizações de bem-estar animal tendem a premiar cadeias de lanchonete que se comprometem em usar hambúrgueres de vacas que sofreram menos pra morrer, ou cientistas que se comprometem em reduzir o número de animais usados em seus laboratórios, ou refinar a técnica de modo a diminuir significativamente seu sofrimento. O bem-estarismo não cogita uma campanha de eliminação dessas formas de exploração animal porque eles mesmos se beneficiam desse uso. O bem-estarismo tem, enfim, objetivos diferentes dos direitos animais, e não faz sentido defender que a adoção de uma estratégia bem-estarista levará a abolição do uso de animais. Nós chegamos aonde estamos tentando ir.

Embora a concepção de direitos animais seja antiga, podendo remontar ao século XVII (para mais detalhes, ler O homem e o mundo natural, de Keith Thomas), sua caracterização enquanto movimento distinto do de bem-estar animal só tomou forma mediante os escritos de Tom Regan e Gary Francione. O processo ainda está em curso e depende das pessoas envolvidas reconhecerem que as diferenças existem e que as distinções são necessárias.

O movimento de direitos animais caracteriza-se pelo reconhecimento de que animais possuem os mesmos direitos que o ser humano à vida, e que esses direitos não podem ser negociados. Animais têm interesse na vida e existência continuada e jamais devem ser usados como recursos, ainda que se provem benefícios para o ser humano ou para maior número de animais.

Considerando tudo isso, o veganismo não é apenas uma escolha individual, mas uma obrigação moral de todo ser humano. Não é concebível que uma pessoa que diga defender animais não seja vegana visto que o veganismo é o primeiro estágio que o indivíduo deve buscar após reconhecer que animais possuem direitos. Uma pessoa que difunde direitos animais sem antes haver adotado o veganismo age de forma desonesta, pois pretende ensinar sem antes haver aprendido, e propõe que os outros façam o que ela mesma não se comprometeu a fazer. O veganismo não é um mero detalhe na vida do indivíduo, ele é fundamental para se entender de que forma que a pessoa realmente se compromete com os direitos animais. Veganismo é direitos animais em ação.

Dito isso, entendemos o porquê do movimento de bem-estar ser mais popular que o movimento de direitos animais. O “bem-estar” não exige nada do indivíduo, basta reconhecer que animais sofrem. E nem é necessário reconhecer que todos os animais sofrem, basta que sejam aqueles que nos são mais simpáticos. Basta empunharmos cartazes e gritarmos palavras de ordem. Basta dizermos que gostamos de animais. Não é necessário, realmente, mudar nada em nossas vidas para que sejamos “protetores de animais”.

Por outro lado, reconhecer que animais possuem direitos exige que transformemos nossas vidas, que façamos algo a respeito. E fazendo isso, levantamos muitas críticas daqueles que não querem assumir os mesmos compromissos. Muitos não negam que animais têm direitos, mas preferem defender que assumir que não devamos utilizá-los seja uma posição utópica. Que a sociedade não está ainda preparada para isso e que a adoção do veganismo é uma atitude extrema, radical. Defendem que quem quiser adotar o veganismo pode fazê-lo, mas que o veganismo não é para todos, e que as pessoas podem optar por continuar fazendo uso de animais.

Enfim, acreditam que animais têm interesse em não sofrer, mas não que eles tenham interesses na vida continuada. Que basta que animais morram sem sofrimento para que sua exploração seja considerada ética. Defendem ainda que aqueles que lutam pelos direitos animais colocam seu ativismo como uma questão de “tudo ou nada”, ou seja, que não acreditam que pequenos ganhos pela causa. Essa crítica é bastante infundamentada, até porque ela surge toda vez que bem-estaristas recebem criticas por estarem promovendo legislações que não representam pequenos ganhos pela causa, mas sim regulamentações de uso de animais.

Outra crítica infundamentada muitas vezes recebida é a de que animais não têm direitos porque direitos pressupõem deveres perante um Estado. Ora, se assim o fosse, bebês e deficientes mentais não gozariam de direitos, visto que não possuem deveres para com o Estado. Ademais, o que se busca para os animais não é “proteção” da forma como é colocada pelos “protetores de animais”, nem o direito ao voto, nem qualquer reconhecimento de cidadania. Direitos animais referem-se aos direitos à vida, à existência sem sofrimento e livre do subjugo humano. Não há porque exigir dos animais qualquer obrigação para com o Estado.

Entendidas as diferenças entre ambos os movimentos, resta-nos entender de que forma cada qual deve buscar seus objetivos. Vimos que o movimento de bem-estar animal tem uma forma de atuação que privilegia a premiação de indivíduos e organizações que se comprometem em explorar animais fazendo uso de “métodos humanitários”. Vimos também que esse movimento busca a elaboração de legislações que estabeleçam de que forma animais podem e de que forma animais não podem sofrer. Outras formas de ativismo, em verdade ‘demonstrações de que existimos’ podem ser enumeradas, entre elas protestos, performances de rua, divulgação de materiais, organização de abaixo-assinados, etc.

Convém que o movimento de direitos animais, enquanto movimento distinto do movimento de bem-estar animal, não tome parte dessas ações, ou quando o fizer, que o seja de maneira bem criteriosa. Creio que a palavra critério seja fundamental para a compreensão de todo o texto que se segue. Comecei o presente texto com uma crítica à popularização e mau uso do termo abolicionismo, porque mesmo quando adotados por veganos sinceros, seu emprego em um contexto bem-estarista acaba por corromper a palavra em sua pureza. Ativistas pelos direitos animais devem ver com reservas toda ação promovida pelos grupos de bem-estar animal. Devem ser criteriosos na escolha daquilo que apoiamos, aquilo a que somos indiferentes, e aquilo que merece nossas críticas.

Nesse 1º ENDA foi pedido que eu falasse sobre o caminho que o ativismo pelos direitos animais deveria tomar no futuro. Não sou dado a previsões, mas posso analisar criticamente o movimento no presente e tentar esboçar um movimento ideal no futuro. Certamente o que mais me incomoda no movimento presente é a falta de critério. Uma boa demonstração de falta de critério é a quantidade de e-mails inúteis referentes ao tema que recebemos diariamente. Sob a pretensão de estar ajudando animais, ativistas fazem circular tudo o que recebem. É óbvio que muito desse material é repassado sem uma leitura prévia, pois não se encontra nele nenhum objetivo prático. Também o texto nem sempre condiz com aquilo que acreditamos. É material ruim e até contrário à nossa ideologia, mas porque dele constam palavras chaves – direitos animais, proteção animal, etc. – ele simplesmente chega ás nossas caixas. Falta de critério dos ativistas.

A falta de critério também se torna evidente quando consideramos o grande número de atividades que se desenvolvem sob o pretexto de ‘direitos animais’. Embora o número seja relativamente grande, considerando o número de ativistas, faltam a essas atividades objetivos claros, foco, organização, enfim, são atividades sem propósito que apenas consomem tempo e energia dos ativistas.

Baseado nessas considerações supus que ‘falta de critério’ seja o maior problema do ativismo do presente e que ‘mais critério’ seja o que devemos buscar para o ativismo do futuro. Existem 5 perguntas que as organizações sempre devem se fazer para otimizar suas ações. Creio que movimentos e indivíduos envolvidos com direitos animais, para trabalhar com maior critério, devam sempre se fazer essas perguntas, também. São elas: Qual? Como? Quem? Onde? e Quando?

• Qual? – “Qual o objetivo de determinada atividade? Quais atividades realmente merecem nossa atenção e a quais devemos ser indiferentes?” A pergunta qual? é importante para o ativista, pois impede que ele se envolva com atividades que não resultem em nada ou que resultem em algo que não seja seu objetivo. Algumas vezes me envolvi em campanhas sem realizar os devidos questionamentos e só então percebi que os objetivos de alguns dos participantes eram distintos dos meus. Outras vezes não havia objetivo algum, apenas o dispêndio de tempo e energia. Poucas pessoas gozam o privilégio do tempo e energia ilimitados. Para aqueles que trabalham, que possuem relações sociais, família, etc, as ações precisam resultar em algo, caso contrário serão ações vazias. Tudo o que fazemos tem que fazer sentido. Não adianta atirar para todos os lados, envolver-se com toda ação proposta, é hora de parar e se concentrar. Quais atividades de fato merecem nossa atenção?

• Como? – “Como devo agir?” “Como vou atingir meu objetivo?” A pergunta Como? é importante porque muitas vezes as atividades propostas tem um objetivo claro, mas as ações pretendidas não são compatíveis com esses objetivos ou os efeitos que delas podem advir potencialmente produzirão resultados não desejáveis. Mais adiante realizaremos uma análise critica dessas formas de atuação.

• Quem? – “Quem podemos chamar para fazer parte de nossas atividades ou de nosso grupo?” A pergunta Quem? é bastante importante no que se refere à formação de grupos ou das atividades que demandam a participação de muitas pessoas ou grupos distintos. Trabalhos em grupo são mais difíceis de manter dentro de um critério porque por sua própria natureza, as pessoas não agem de forma coesa. Quando o ingresso em um grupo se dá de uma maneira não questionada os grupos se tornam entidades heterogêneas, abertas a praticamente todas as formas de pensamento. É ótimo que no nível individual as pessoas possuam liberdade de pensamento, mas isso dentro de um grupo descaracteriza todo o trabalho. Grupos deveriam trabalhar por um objetivo claro e para isso a maior homogeneidade possível é impreterível. Por esse motivo, grupos menores tendem a ter ações mais focadas e o trabalho individual bem feito tende a ter qualidade superior ao trabalho realizado em conjunto. Grupos grandes e inchados tendem a ter infiltração de bem-estaristas, o que condena toda e qualquer ação do grupo. Em um grupo menor, com número mais limitado de pessoas, porém, é mais fácil encontrar retidão, coerência, honestidade, bom senso, responsabilidade, capacidade de manter o foco, convicção, clareza, profundidade, características desejáveis em companheiros de atividades.

• Onde? – “Onde a ação deve se desenvolver?” A pergunta Onde? tem importância somente após decidida quais ações valem a pena serem tomadas, como deve-se agir e quem será chamado a participar. Ações em locais públicos demandam um questionamento per se, pois os efeitos desejáveis podem ser suprimidos por efeitos indesejáveis que poderiam ser previstos caso houvesse maior critério. Também, é importante que as ações sejam tomadas em locais que de alguma forma tenham relação com os objetivos propostos e cujo público alvo seja capaz de tomar decisões que de fato tenham efeito sobre os objetivos almejados.

• Quando? – “Quando ela deve começar?” A pergunta Quando?, igualmente, tem importância somente após realizadas as três primeiras perguntas. Muitas vezes os objetivos são válidos, a forma de agir é compatível com esses objetivos, a escolha do local é a ideal, mas o momento não é o correto. Para que os objetivos sejam atingidos muitas vezes precisamos ter tomados medidas anteriores à ação. Não adianta trabalhar por algo fazendo com que as ações se antecedam aos eventos. As coisas funcionam dentro de determinada ordem e contrariar essa ordem pode significar não atingir o objetivo da ação.

O ativista pode encontrar problemas em agir seguindo esse critério, especialmente quando o convite para tomar parte em ações sem objetivos claros partir de pessoas por quem ele tenha apreço. Mas, certamente, o ativismo pelos direitos animais não deve ser usado como um recurso para fazer ou manter amizades. É bom que do ativismo resultem amizades, mas a verdade dos direitos animais e seus objetivos estão acima disso.

No passado me abstive de dizer para certos “ativistas” que o que eles faziam nada tinha de direitos animais, seja por causa das atividades em si, seja porque seu estilo de vida sequer era compatível com essa ideologia. Não é possível, por exemplo, que uma pessoa se identifique como ativista pelos direitos animais sem que antes tenha adotado um estilo de vida vegano. Veganismo não é o estágio máximo, superior, que o ativista deve atingir após anos de “desenvolvimento espiritual”. Veganismo é o estágio inicial, pelo qual ele primeiro realiza a mudança em si mesmo, para então buscar a mudança nos outros. Não devemos tentar ensinar aquilo que nem mesmo nós aprendemos.

No presente encontro-me afastado de muitas pessoas que conheci nessa jornada simplesmente porque disse a verdade. Vislumbrei que não estava no ativismo para fazer amigos, mas para atingir um objetivo. Amigos tenho fora do ativismo, pessoas que comem carne e que declaradamente não estão nem aí para os animais. No ativismo quero trabalhar com pessoas que vivam sua ideologia, e que tenham um estilo de vida compatível com ela. Pessoas que primem pela coerência. Disse certa vez John Kennedy “O segredo do sucesso é não tentar agradar a todo mundo”. Se algumas pessoas não suportam a verdade esse é um problema delas. Creio que no futuro os ativistas não precisarão passar por isso, pois já encontrarão dois movimentos bastante distintos.

E de que forma se dará o ativismo pelos direitos animais do futuro? Feitas as 5 perguntas e adotado a todo momento o pensamento criterioso, creio que o ativismo no futuro não lançará mão de recursos tão diversos dos já adotados atualmente, seja a divulgação de textos, o trabalho junto à mídia, a panfletagem, a organização de protestos, de performances, abaixo-assinados ou mesmo a ação direta. O que não temos hoje e espero que tenhamos no futuro é critério.

Não há nada de inerentemente errado em nenhuma das ações enumeradas acima. O erro está no uso que se tem feito de cada uma delas até o presente momento. A ação em si não tem sentido se ela não almeja um objetivo e se esse objetivo não condiz com os interesses dos animais. Considerando, ainda, que no futuro espera-se que haja um maior aprofundamento e até uma profissionalização do ativista, as ações tenderão a demandar menor gasto de tempo e energia com um maior rendimento nos resultados. Analisemos criticamente, à seguir, algumas dessas formas de atuação:

A divulgação de material é certamente uma ótima forma de atuação porque tem o potencial de educar as pessoas. Educar é, afinal, a melhor forma de atuação dentro do movimento. No entanto, sem critério, podemos estar divulgando material cujo conteúdo pode não condizer com a ideologia que queremos que as pessoas adquiram. Quando recebemos um material é prudente que, antes de repassá-lo, questionemo-nos: “Esse texto é perfeitamente coerente com minhas idéias? A linguagem empregada no texto é adequada? Ela é acessível? O texto é claro? Ele está bem embasado? A argumentação fere algum conceito ético?”.

Se o texto for ruim ou mais ou menos, não convém divulgá-lo. Quando as palavras não são colocadas de forma clara e exata e o texto dá margem a mais de uma interpretação, ou quando as palavras parecem ser medidas de modo a evitar tratarem explicitamente de direitos animais, veganismos ou outros temas, apenas porque o autor pode considerar que a população não está preparada para essas idéias, encontramos textos falhos. Textos com conteúdo religioso ou de ideologias diversas aos direitos animais também devem ser evitados. Textos que contenham referências a fatos científicos, como é o caso de nutrição ou fisiologia, devem ser tecnicamente bem embasados. Enfim, a divulgação de textos deve ser criteriosa e apenas textos que atendam a critérios bem específicos devem ser divulgados.

É curioso que no presente sejamos sempre incitados a dar apoio a determinado projeto de lei ou a assinar determinado abaixo-assinado, porque aí se encontra “a salvação dos animais”. Mas por que recebemos esse material já engessado, em um texto ruim e que não pode ser alterado? Por que a pessoa que agora te procura buscando teu apoio não te procurou antes, quando da elaboração desse material? Correndo o risco de parecermos mesquinhos, não se trata de orgulho de alguém que não foi consultado anteriormente, mas de alguém que não encontra naquele texto a expressão de suas idéias referentes àquele assunto.

Tendo em mãos um bom material para ser divulgado, cabe decidir a melhor forma de fazê-lo. Enviar textos pela internet é uma forma barata e com potencial de atingir pessoas em lugares distantes, mas mesmo aí é necessário haver critério. Se eu recebesse, digamos, textos com conteúdo evangélico em minha caixa de mensagens, além de não lê-los eu possivelmente pegaria birra de quem me enviou. Não tendo interesse pelo assunto não quero receber material com esse conteúdo. Simplesmente enviar material referente a direitos animais para pessoas que simplesmente não se interessam pelo assunto não as fará interessarem-se. Poderá, quanto muito, fazê-las adquirir aversão pelo assunto.

Outra forma de divulgar mensagens é através de panfletos. É providencial ter em mãos panfletos com bom conteúdo, para entregar às pessoas que por algum motivo se interessam pelo assunto e que querem saber mais. Panfletos são uma extensão da abordagem, trazem referências para que o assunto não morra ali, tenha uma continuidade. Bons panfletos trazem links para boas entidades; mais tarde a pessoa interessada pode buscar outras informações na internet.

Mas a panfletagem por si só, o ato vazio de entregar um panfleto para um pedestre na rua, ou para um motorista parado em um farol, não tem qualquer razão de ser. Quando recebo um panfleto na rua descarto sem ler. Ele vai parar na primeira lixeira ou no cestinho do carro. Pedestres que não tem tempo para conversar com você não terão tempo nem interesse de ler um panfleto que receberam na rua. Panfletos assim desperdiçados são recursos da entidade jogados fora, é lixo gerado, e não tem potencial de produzir os efeitos desejados.

Atividades como protestos e performances também precisam ser realizados de maneira bastante criteriosa. Precisamos a todo o momento questionar se com tais manifestações atingiremos algum objetivo. Particularmente assisto a protestos praticados por outros movimentos e não posso entender quais sejam suas exigências. Sei que uns são sem-terra, outros são estudantes de esquerda... mas o que eles realmente estão reivindicando? E se entendo a reivindicação, não entendo de que forma que o protesto pode ajudar. A quem ele é dirigido? Essa pessoa tem poder para cumprir com essas exigências? Se não há resposta para essas perguntas, o protesto ou a performance não fazem sentido.

Os protestos e performances em si não nos educam e, se chamam nossa atenção, nem sempre isso é feito de uma maneira positiva. Invariavelmente protestos significam pessoas segurando faixas e cartazes, e gritando palavras de ordem. Apenas quem está “puxando” o protesto tem voz, o restante é massa de manobra e não necessariamente está familiarizado com a situação. Há um lado hipócrita dos protestos, porque seu objetivo é juntar o máximo de pessoas possível, não importa qual seja sua ideologia.

Um protesto pode, inclusive, ser constituído por uma maioria que sequer pratica aquilo que está exigindo dos outros. Um protesto pelos direitos animais pode ser realizado por um grupo de pessoas cuja maioria não seja vegetariana. Um protesto pelo fim da experimentação animal pode ser promovido por pessoas que utilizam produtos testados em animais. Atividades que reúnem grande número de pessoas nem sempre são honestas e esse é um ponto importante a considerar.

Outro ponto importante é a possível antipatia que essa atividade pode gerar nas pessoas. Possivelmente uma pessoa que não pôde chegar em casa na hora desejada porque havia determinada atividade atrapalhando o trânsito não verá com bons olhos a mensagem desse grupo. Uma performance que faça uso de nudez ou que simule intercurso sexual pode não agradar a muitas pessoas, além de gerar o questionamento de como pode um grupo que combate o especismo fazer uso de recursos sexistas para levar adiante sua mensagem. E mesmo que a performance não faça uso desses recursos cabe o questionamento. É uma performance de bom gosto? As pessoas que a assistem entendem a mensagem?

Entendo que ter uma boa relação com a mídia é primordial para o futuro do movimento. Possivelmente no futuro os ativistas contarão com um corpo de especialistas nos diversos assuntos pertinentes aos direitos animais, prontos para fornecer opiniões sobre os diferentes assuntos. O ativismo contará também com uma efetiva assessoria de imprensa. Estar na mídia é importante, mas apenas quando a mensagem a ser transmitida é clara e está livre de distorções. No presente prevalece a idéia de que estar na mídia a qualquer custo é algo vantajoso. Isso está errado. Se for para aparecer em uma situação de ridicularização, ou transmitindo uma mensagem que não condiz com a ideologia, é melhor não estar na mídia.

Igualmente, as ações diretas, tão valorizadas por uns, tão depreciadas por outros, na verdade podem ser consideradas válidas desde que obedecendo a determinados critérios. As ações que se confundem com vandalismo, terrorismo, violência, etc. devem ser combatidas, não porque aqueles que sofrem essas ações mereçam alguma consideração, mas porque a impressão de que determinado grupo pratica violência tem efeito negativo sobre a população. Nós somos a forma como os outros nos vêem. Se educação é a principal bandeira do movimento, convém que as pessoas sintam simpatia pelo mesmo. Invadir um laboratório e dele retirar animais pode gerar simpatia ou antipatia, depende da forma como isso será feito.

Outro problema relacionado à ação direta é o possível destino que poderá ser dado aos animais. Em um determinado momento um grupo bem intencionado de jovens ativistas poderão ter em mãos centenas de cães, gatos, coelhos, furões, macacos, chinchilas, ou seja qual for a espécie animal. O que fazer com esses animais? É óbvio que quase qualquer coisa é melhor do que um laboratório ou uma fazenda de pele, mas simplesmente soltar animais em um ambiente selvagem não é algo bom de se fazer, primeiramente porque não sendo aquele o ecossistema ao qual o animal pertence e tendo esses animais passado suas vidas em cativeiro, suas chances de sobrevivência são mínimas. Em segundo lugar a introdução de espécies estranhas ao ambiente gerará impactos sobre as espécies ali presentes.

Um terceiro problema relacionado à ação direta é que o senso de justiça dos ativistas não condiz com o senso de justiça da polícia. O que uns podem ver como libertação, para outros significa vandalismo, invasão e roubo de propriedade. Ativistas podem ser presos praticando ação direta e precisamos de ativistas do lado de fora das prisões. As ações diretas não devem ser totalmente condenadas, mas menos ainda devem ser encorajadas. Os ativistas são mais úteis aos animais desenvolvendo outras atividades do que se envolvendo com ações diretas.

Enfim, de uma maneira geral, o que difere o ativismo do presente e o ativismo do futuro é que no futuro os ativistas terão mais senso crítico. No futuro as ações serão melhor planejadas, e por isso serão mais efetivas, com menor gasto de tempo e energia. No futuro haverá ativistas especialistas em diferentes assuntos. Haverá materiais de qualidade cobrindo os mais diferentes assuntos, o que evitará que continue a se proliferar a falta de informação e o ‘achismo’. Acima de tudo, o ativismo no futuro se desvencilhará do estigma de atividade de gente desocupada, de gente radical, de gente relacionada ao esoterismo ou hippies. Assumida uma postura mais séria e com uma mensagem mais clara, haverá maior respeito da população e da mídia.

Fonte: www.sentiens.net

sábado, 19 de julho de 2008

"Eles não comem churrasco"

Como e por que alguém é vegetariano?

Carol Patrocinio

“Mas como assim, você não gosta de uma picanha bem sangrenta?”, essa é uma pergunta que para muitas pessoas não incomoda, mas em alguns casos, se torna insistente, repetitiva e cansa quem a houve; é o caso dos vegetarianos.

Agora você, que não é vegetariano, deve estar se perguntando: “mas por que alguém deixa de comer carne?” e, em casos mais extremos, qualquer alimento de origem animal, além de tratar o meio ambiente diferente das pessoas ditas ‘normais’.

Os motivos

Para José Nunes, de 23 anos, foi uma coisa natural: “Fui criado fazendo churrasco. Todo final de semana era churrasco com a família e eu lá, cuidando da churrasqueira. Nessa época, já acontecia de eu pegar um pedaço de carne pra comer e quando eu olhava pra ela eu via um nervo, uma veia e pensava ‘pô, era uma vaca...’ e já não conseguia mais comer nada de carne, pulava pra salada”.

Pela saúde
Os vegetarianos pregam que ao não ingerir carne você equilibra os níveis de colesterol, reduz o risco de doenças no coração e de alguns tipos de câncer, além de evitar os hormônios de crescimento e antibióticos utilizados na criação dos animais para abate.

Pelo meio ambiente
Sem comer carne você reduz o impacto ambiental da sua alimentação. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, para produzir 1 kg de carne bovina você precisa gastar, mais ou menos, 15 mil litros de água (se você considerar o consumo do animal durante sua vida inteira); enquanto para produzir 1 kg de soja são gastos menos de 1300 litros de água, o que é só 10% do gasto com animais. A economia de água é, portanto, superior a 90%.

Pela ideologia
Homens não são melhores que os animais, portanto, não precisam se alimentar da carne dos bichinhos, já que sua vida não depende disso.

Outro motivo para parar de comer carne é a forma como os animais de abate são criados. As condições são horríveis, feita em pequenos espaços, com alimentos artificiais e tratados de forma agressiva durante o transporte ou antes do abate.

“Parei gradualmente com o consumo de carnes, parando com carne vermelha e de porco, depois aves e por fim, peixes. Nesse tempo fui estudando as variáveis da dieta vegetariana, como a lacto-vegetariana, vegana, crudivorismo, frugivorismo, etc. Estudei principalmente a dieta vegana, por ser a mais compatível com a idéia de ética no tratamento dos animais. Quando vi que tinha conhecimento suficiente sobre a dieta vegana, passei a abolir os alimentos de origem animal como mel, ovo, leite e gelatina da minha dieta, assim como produtos testados em animais”, conta José Nunes.

Os tipos de vegetarianos

Ovo-lacto-vegetariano
É o tipo de vegetariano que você mais encontra por aí. São pessoas que não comem nenhum tipo de carne, mas podem consumir leite, ovos e produtos derivados de animais.

Lacto-vegetariano
Nenhum tipo de carne faz parte da alimentação e o único derivado de animal aceito na dieta é o leite e produtos fabricados a partir dele.

Vegano
É o tipo de vegetariano mais difícil de seguir: eles não comem nenhum tipo de carne e nem qualquer produto que tenha origem animal. Porém, para os ‘vegans’, como são conhecidos, o consumo de produtos de origem animal não se baseia apenas na alimentação, mas segue também nos outros âmbitos da vida, como roupas, acessórios e produtos de beleza, nada que venha de animais ou seja testado neles é aceito. Ser vegan é um estilo de vida.

Crudivorismo
São os vegetarianos que além de não comer nada de origem animal, só comem alimentos crus.

Frugivorismo
Apenas frutas. A dieta dos Frugívoros não permite nada de origem animal e se baseia apenas em frutas.

O preconceito

Mas como tudo que muda os conceitos vistos como normais, a decisão de se tornar vegetariano ou vegan pode trazer sérios contratempos a sua vida social. José Roberto conta que no começo foi bem difícil: “Minha mãe não aceitou, dizendo que eu ia morrer de desnutrição, que eu deveria comer pelo menos peixe. Mas depois de um tempo ela se entregou e começou a se interessar pela culinária sem crueldade. No trabalho, era o assunto na hora do almoço, sempre com aquelas perguntas do tipo: ‘pô, você não come nem frango?’, ‘você vive do quê, de luz?’ e por ai vai”.

As bebidas

Vegetarianos podem beber, porém, ao escolher uma dieta vegetariana, seja ela de qualquer um dos tipos conhecidos, a pessoa acaba escolhendo também um tipo de vida mais saudável e fazendo a opção por alimentos, incluindo bebidas, que não prejudiquem seu corpo.

“Vejo uma possível ligação no aspecto da saúde, pois a maioria dos vegetarianos, além de pensar no bem estar e no tratamento ético aos animais, pensa também em manter hábitos saudáveis, o que talvez, vá contra o consumo de álcool”, comenta o vegan.

Não confunda

Muita gente acha que quem é Straight Edge - hardcore ou punk livre de drogas – também é vegan/vegetariano, mas nem sempre é assim. “São cenas convergentes, mas não tem uma ligação obrigatória, ou seja, ser straight edge não significa que você deva ser vegetariano e vice-versa. No Brasil, o que a gente tem é uma cena straight edge com a maioria sendo vegetariana ou vegana. Essa ligação acaba sendo algo natural dentro de um ambiente mais politizado, como a cena hardcore punk, não só straight edge”, explica José Nunes.

As dicas

Nada acontece de um dia para o outro. Se você quer se tornar vegetariano precisa entender o que está fazendo e ir mudando sua alimentação aos poucos, senão seu corpo pode sentir drasticamente essa mudança.

“Leia bastante sobre nutrição vegetariana e tenha força de vontade. Se você acredita na causa vegetariana, fica muito mais fácil”, incentiva José.

Virando expert

E como saber mais sobre esse pessoal, suas idéias, hábitos e a forma de vida, afinal, você precisa de uma ajuda pra começar, né!

José Nunes conta como entrou nessa: “O veganismo especificamente eu conheci através da cena straight edge de São Paulo, na Verdurada [evento que reúne músicas e palestras]. Foi numa palestra que conheci o termo "vegan", seu significado e todas suas variáveis. Sem contar que, através da música, sempre ouvia mensagens de apelo vegetariano, como em músicas das bandas Gorilla Biscuits e Nations on Fire”.

A gente também resolveu te ajudar e escolheu alguns sites bacanas pra você ler mais sobre o assunto. Confira!

Sítio Veg: site completíssimo com receitas, depoimentos, notícias e tudo que você pode querer sobre vegetarianismo

Centro Vegetariano: site com dicas de restaurantes e explicações sobre os alimentos

Receitas Vegetarianas: receitas vegetarianas

Verdurada: uma balada cheia de vegetarianos que curtem rock

Como virei vegetariano: Rodrigo Stulzer conta como foi sua mudança de vida

Vegan Pride: Acessórios Livres de Crueldade

Você mudaria seus hábitos alimentares? Acredita que é uma boa idéia? Comente!

Leia mais sobre: alimentação

Fonte: IG

sexta-feira, 18 de julho de 2008

VEGANISMO E ETNOCENTRISMO

Bruno Müller
bfmuller@gmail.com

Não é incomum nos depararmos com esta acusação, quando defendemos o veganismo: afirmam que comer carne é uma questão cultural, e que tentar mudá-la não é apenas autoritário, mas também etnocêntrico (ou seja, a imposição da própria cultura sobre as demais). Hoje gostaria de desmistificar essa idéia.

O buraco negro do relativismo

Essa questão incorre, inevitavelmente, na armadilha do relativismo cultural, o qual afirma que todas as culturas são relativas e se equivalem.

Respeitar as diferenças culturais não significa sacralizá-las nem considerá-las imutáveis - o que é uma interpretação conservadora que não combina com o discurso, em geral progressista, dos que apelam para o relativismo cultural como princípio, e não como ferramenta de análise. O que os relativistas não entendem é que equivalência não exclui a incompletude. Todas as culturas são incompletas. Apontar tais incompletudes não é manifestação hegemonista ou preconceituosa.

O relativismo cultural se apresenta em círculos cada vez mais próximos do indivíduo. Consideram que não podemos criticar culturas de outra matriz civilizacional (ex: ocidentais não podem criticar orientais ou indígenas). Depois, consideram que não podemos criticar outros países, mesmo que da mesma matriz civilizacional (brasileiros não podem criticar, digamos, as touradas espanholas). Daí a coisa se estende para regiões do mesmo país, pessoas de outras classes sociais, outro sexo, outra geração até que, finalmente, talvez não tenhamos o direito de criticar ninguém além de nós mesmos, numa ditadura do acriticismo relativista politicamente correto.

O que tais pessoas não entendem é que é impossível viver sem fazer julgamentos, emitir opiniões. Fazemos isso o tempo todo, e não há nada de necessariamente errado nisso. Toda opinião já é, em si, um julgamento. Também não entendem que a cultura não é imutável, e que suas transformações muitas vezes se dão pela luta ativa por mudanças, não apenas por uma suposta evolução interior sem atropelos. Embora a cultura - como os indivíduos - só mude através da aceitação geral de novos paradigmas, diálogo e o convencimento são ferramentas necessárias no processo e que, aliás, são usadas por todos, o tempo todo.

Alegar que a carne deve ser respeitada por ser cultural equivale a dizer que devemos respeitar atrocidades do passado e do presente. Pena de morte, tortura, mutilação genital (masculina e feminina) são características presentes ainda em muitas culturas. Isso sem mencionar questões como a opressão feminina, o racismo, a homofobia, a intolerância religiosa, que com variações, são provavelmente universais. Seria errado condená-las como bárbaras por acontecerem fora do meu círculo social?

Por fim, o relativismo é uma atitude que se auto-anula: se eu me declaro incapaz de julgar qualquer opinião, como posso condenar atitudes que considero absolutistas? Se todas as práticas e opiniões são relativas, como eu posso condenar pessoas que lutam contra determinadas atitudes que elas consideram injustas (criação de animais, tortura de seres humanos, apedrejamento de adúlteras)? Se a objeção é acerca dos que se manifestam contra atitudes e opiniões expressas em outro tempo e outras culturas, deveríamos nos questionar se as culturas são estanques, incapazes de dialogar entre si - o que é, obviamente, uma mentira. Nenhuma cultura vive isolada. Deveríamos igualmente nos questionar sobre a adoção seletiva de idéias e costumes estrangeiros: se tantos deles, ocidentais ou orientais, são adequadas para outras culturas que não aquelas de onde se originaram, porque não o respeito aos direitos individuais - e, dentre eles, os direitos dos animais não-humanos?

VEJA O RESTO DA MATÉRIA AQUI!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Dieta rígida pode proteger contra o câncer de próstata

Regime propõe redução do total de gorduras da dieta diária a 10%.
Pacientes que seguiram o programa apresentaram melhora no quadro da doença.

Um trabalho científico de um grupo de pesquisadores da Califórnia buscou diminuir o avanço de tumores da próstata em fase inicial.

O estudo foi comandado pelo médico Dean Ornish, autor de uma dieta radical que já provou ter efeitos positivos sobre as doenças cardiovasculares.
Seu esquema dietético utiliza o vegetarianismo, redução do total de gorduras da dieta diária a 10%, exercícios regulares e técnicas de gerenciamento de estresse.

Os especialistas da Universidade da Califórnia de San Francisco selecionaram 93 homens com diagnóstico de câncer de próstata em fase inicial. Esses pacientes tinham optado por uma abordagem conservadora do tumor, ou seja, acompanhar os níveis do PSA e deixar tratamento habitual, inclusive cirurgias, para mais tarde.

Metade desse grupo aderiu à dieta de Ornish e a outra metade seguiu o tratamento sem orientação dietética específica. A hipótese era de que a dieta poderia impedir ou modificar o comportamento do tumor agindo sobre suas células.

A teoria era baseada em evidências científicas de que algumas substâncias presentes nos vegetais agiriam sobre as células tumorais da próstata — entre elas, o Licopeno, presente no brócolis ou nos tomates.

Amostras de sangue para dosagens seriadas do PSA, antígeno específico da próstata foram colhidas nos particpantes dos dois grupos. Para garantir a isenção do estudo as amostras foram enviadas a um centro de referência para tratamento de câncer, o Memorial Sloan Kettering em Nova York.

Os resultados mostraram que os participantes que aderiram à dieta de Ornish apresentaram uma queda de 4% nos níveis de PSA em um ano. Os pacientes que seguiram o tratamento tradicional tiveram uma elevação de 6% nos níveis do PSA.

Apesar de ter um número de participantes, essa pesquisa chama a atenção da necessidade de aprofundamento no estudo dos aspectos nutricionais no tratamento do câncer.

Fonte: G1

quarta-feira, 16 de julho de 2008

FESTIVAL DE FOIE-GRAS EM SÃO PAULO - PROTESTE!

De 16 a 20 de julho, o Le Vin Bistro Jardins, situado na alameda Tietê, 184, São Paulo/SP, promove um festival de foie gras, comandado pelo chef Marcílio Araújo. Os proprietários do restaurante são Nancy Mattos e Francisco Barroso.



O FOIE GRAS (patê de fígado de ganso)
Entre os hábitos alimentares humanos que exigem sofrimento e morte de animais, a França dá a sua contribuição com o caso do foie gras - seu processo resulta no adoecimento do fígado. As aves são criadas apenas com o objetivo de terem seus fígados transformados em caríssimo patê.
Desde que nascem, os pequenos gansos recebem uma carga de alimentos muito rica em gorduras saturadas, de modo a ter seu fígado aumentado.
São alimentados à força por meio de tubos que atingem diretamente seu estômago, pois, caso contrário, não comeriam aquele tipo de comida. Muitas vezes é colocado um elástico nos seus pescoços de modo a evitar a regurgitação. Nunca se alimentam por conta própria de nenhum tipo de comida extra, além da "gordurama".
Chegam à idade adulta com fígados que podem atingir até cinco vezes o peso do resto do seu corpo. Eles não se movimentam mais, pois perdem a capacidade de andar. São mortos cruamente, e após terem retirados seus fígados, suas carcaças são atiradas no lixo, pois não servem para consumo devido ao excesso de antibióticos e drogas que recebem. Hoje muitos países produzem o foie gras.
Veja vídeo em http://www.freewebs.com/areapro/foiegras.htm.


PROTESTE!
O fone do Le Vin Bistro Jardins é (11) 3081-3924. É possível enviar mensagens pela página http://www.levin.com.br/levin/contato/.



FONTES
Revista Congonhas VIP

FESTIVAL DE SALGADOS " RESTAURANTE LAR VEGETARIANO/VEGAN "


VEJA MAIS INFORMAÇÕES AQUI

terça-feira, 15 de julho de 2008

Festa Junina Vegetariana em Santos-SP

Data: 20/07 - domingo, 16 hrs
Entrada: 3 reais + 1 kg de alimento ou 1 e 50 + 1 kg de alimento (vestido a caráter)
Local: centro dos estudantes de santos - avenida Ana costa, 308

Grande festa caipira vegetariana no CES!
Comes e bebes típicos, brincadeiras e muita diversão na primeira festa junina vegetariana do litoral!!!

Caldo verde, milho verde, doces (bolos, paçoca, arroz doce, brigadeiro), pipoca, canjica, coxinha veg, groselha, quentão, vinho quente e muito mais!

Distribuição de informativos e material sobre vegetarianismo!

Venha participar do nosso arraial livre de crueldade!
Coveg-BS

Fonte

Esec-AE lança seu terceiro almanaque de educação ambiental

A publicação é resultado do projeto piloto Águas do Cerrado, iniciado em 1998, e apresenta experiências de professores e alunos de escolas públicas de Planaltina (DF), que participaram do curso de Reeditor Ambiental.

O trabalho da Esec-AE tem apoio do WWF-Brasil e realiza-se junto à comunidade escolar e à sociedade do entorno da Estação, que recebem as informações e as adaptam de acordo com a realidade de onde vivem, como forma de despertar a consciência e conquistar, entre os comunitários, aliados na defesa de um dos mais interessantes fragmentos do Cerrado.

E quando se fala de fragmento, é no sentido literal: a Esec-AE, com 10.547 hectares, é praticamente uma ilha, isolada entre as pressões agropecuárias e ocupações urbanas por todos os lados. Daí a necessidade de envolver aquela população no trabalho de conservação.

Berço – As águas emendadas, localizadas no Distrito Federal, a 40 quilômetros de Brasília, são um fenômeno muito raro: em uma mesma vereda, dois olhos d’água seguem cursos opostos que vão alimentar as bacias hidrográficas do Amazonas e do Paraná-Prata. O córrego Vereda Grande corre para noroeste no sentido do Tocantins. No sentido oposto, para sudoeste, o Córrego Fumal que segue seu curso para o Paranaíba, Paraná e Bacia Platina.

A região é rica em espécies de fauna e flora, refúgio de mamíferos, aves e répteis e árvores típicas do cerrado.